Communication
Fragmentos de resistência. Uma contranarrativa sobre os aldeamentos estratégicos na Guiné-Bissau (1968-1974)
Event: Workshop “Ditadura, instituições e quotidianos coloniais”
Authors: Francesca Vita
Date: 19 – 20 Março 2026
Location: Universidade de Cabo Verde, Polo 3, Santa Catarina, Cabo Verde


Summary
Esta contribuição pretende estudar atos de resistência ativados por parte da população africana durante o programa de aldeamentos estratégicos implementado na fase final da guerra de libertação na Guiné-Bissau (1968-1974). Este programa, promovido a partir de 1968 pelo governador general António de Spínola, fazia parte de uma ampla estratégia de contrassubversão apta a conquistar o apoio da população, especialmente quem vivia em zonas militarmente estratégicas. Através da concentração, deslocação forçada e construção de novas infraestruturas, os aldeamentos estratégicos foram uma experiência disruptiva no modo de vida das populações rurais que foram sujeitas a uma nova organização socio-espacial e económica.
Esta contribuição propõe discutir uma questão fundamental, até agora abordada apenas marginalmente pela literatura recente: de que forma estas populações reagiram à prática de serem “aldeadas”? Para resgatar a história dos aldeamentos estratégicos a partir da perspetiva das populações que aí viveram, examinam-se documentos visuais e audiovisuais produzidos por órgãos coloniais que retratam aparentemente “a distância” os aldeamentos concretizados. Através destas imagens e do discurso intrínseco a elas que celebra a ordem e o rigor militar do empreendimento, este artigo volta a olhar de perto os aldeamentos estratégicos, identificando fragmentos de resistência que no dia a dia desafiou (e continua a desafiar) as lógicas coloniais. Estes fragmentos são revelados, por exemplo, na forma como as casas-tipo foram adaptadas aos usos tradicionais subvertendo formas e funcionalidades da casa colonial. A análise fotográfica é acompanhada pela revisão de documentos de caráter militar, como as histórias das companhias que operaram no terreno ou os documentos enviados e recebidos pelo próprio Spínola, destacando uma realidade complexa, heterogénea e feita de negociações com as populações rurais e com a morfologia do país, desde as fases de construção. Esta comunicação propõe uma contranarrativa, feitas de fragmentos de pequenas histórias e locais, que contribui para o estudo dos aldeamentos estratégicos na Guiné-Bissau colocando as populações rurais no cerne da análise.

