Event: Workshop “Ditadura, instituições e quotidianos coloniais”
Authors: Beatriz Serrazina
Date: 19 – 20 Março 2026

Location: Universidade de Cabo Verde, Polo 3, Cabo Verde


Diamang Main Staff House, Dundo, 1950s [DCV-UC/AD]
Foyer Social, Kinshasa, Belgian Congo, 1940

Summary

As actividades da Diamang na Lunda, no nordeste de Angola, ao longo do século XX, no âmbito do colonialismo português, envolveram não só a extracção de diamantes como também a construção de infraestruturas, habitação e equipamentos colectivos nas mais variadas escalas e programas. Esta apresentação visa a Casa do Pessoal da companhia, criada em 1936 e com sucessivas expansões nas décadas seguintes, explorando as diversas materializações da instituição e respectivos contextos de produção. Organizada como espaço fundamental na ordem social na Diamang, simultaneamente incluindo e separando diferentes grupos sócio-raciais, a Casa do Pessoal revela múltiplas interacções com a população e o seu quotidiano, do planeamento e construção à utilização, adaptação e negociação.

As dimensões formais e funcionais da arquitectura parecem evidenciar semelhanças que desafiam concepões tipológicas e retóricas das instituições sociais e recreativas que sustentaram ambições políticas de controlo social. Neste sentido, a apresentação propõe uma abordagem cruzada entre a Casa do Pessoal, a Casa do Povo e os Centros Recreativos – instituições planeadas e construídas entre as décadas de 1930 e 1970 em geografias industriais que dialogaram com Diamang, tanto a nível territorial, como do ponto de vista económico e corporativo. A análise sublinha a importância de considerar conexões mais amplas e complexas entre o aparelho do Estado Novo português e a sua dimensão colonial, num campo historiográfico em que as intersecções no eixo metrópole-colónias suscitam ainda importantes questões analíticas, e também com outras geografias próximas, nomeadamente o caso do Congo Belga, desafiando os limites do nacionalismo metodológico. As relações directas com as pretensões sócio-recreativas da FNAT ou as cartilhas laborais belgas, anunciadas pela própria companhia, ou as apropriações formais feitas na Lunda a partir das propostas arquitectónicas para as Casas do Povo em Portugal, no final da década de 1940, indiciam diálogos que complicam genealogias de poder, ordem e contestação.